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domingo, 11 de dezembro de 2016

O MOMENTO DO BRASIL - IV


SER OU NÃO SER, EIS A QUESTÃO  
(ou, depende da conotação)


O velho dilema de Shakespeare, imortalizado na Tragédia de Hamlet, é emblemático das “mal traçadas” que seguem. 

ATO I

Durante os anos da “Guerra Fria”, o mundo dividiu-se em dois blocos antagônicos, liderados, de um lado, pelos Estados Unidos, e de outro pela União Soviética. Os regimes de força implantados nos diversos países da América Latina, dentre esses o Brasil, alinhados com os EUA, tinham como “inimigo” o regime vigente na URSS e seus aliados, como sabemos o regime comunista. 

Nesse contexto, durante o período da ditadura militar no Brasil (ou da “revolução”, como preferem seus adeptos), a expressão “comunista” ultrapassou o sentido de adepto de uma ideologia política para se tornar sinônimo do “pior defeito” de alguém. Os de minha geração haverão de lembrar que “comunistas comiam criancinhas...”. 

No imaginário popular, as pessoas não tinham a mínima noção do que era mesmo um comunista, mas sabiam que era “coisa ruim”. Essa pecha colocava o sujeito sob grave suspeição. Depois de enfileirados os defeitos de alguém, finalizavam dizendo: “até comunista é”. 

ATO II

Nesse mesmo tempo, ainda na vigência dos “anos de chumbo”, recém saído da faculdade, retornei à minha aldeia para exercer a advocacia. Logo, inconformado com a situação encontrada, coloquei-me em posição contrária aos “senhores locais”. Literalmente, comprei briga com o Prefeito, com o Padre e com o Delegado, passando à militância política no único partido de oposição. 

Não fosse isto suficiente, fui fundador de uma instituição cultural, que não pediu licença nem favores aos “donos do pedaço”, editei um jornal e, para “piorar”, era advogado de sindicatos de trabalhadores. Com essa ficha toda (muito mesmo para meus escassos 27 ou 28 anos à época), logo surgiram comentários velados: “é comunista”. 

Aquilo que os toscos mandarins e seus áulicos asseclas pensaram me impingir como um defeito, estimulei, também sutilmente, achando até divertida a ideia (afinal, eu passara a ser qualificado como “perigoso”), embora nunca tenha efetivamente exercido militância no velho PCB ou nos novos PCs. Necessário registrar que tenho amigos comunistas e até compadres (mas nunca vi espetarem criancinhas nos churrascos que assamos juntos). 

Bueno, dito isto, para minha tradução à época, ser taxado de comunista, na conotação dada pelos iletrados locais, era ser contra aquele regime ditatorial, era não “se vender”, não “se assustar” e não se omitir. Se para eles isso era ser comunista, então eu era. 

ATO III

Os tópicos anteriores são introdutórios ao registro que faço agora. Não sou adepto, nem defensor, do governo que aí está. Também, não acho que seja um “governo de comunistas”, ou teriam se convertido a essa ideologia José Sarney, Collor de Melo, Paulo Maluf e outras “grandes figuras” da nação? 

Numa controvérsia de opiniões com um amigo aqui da rede social, falando sobre o atual momento do país, quando eu me insurgia contra a pregação por um golpe militar, me dizendo um democrata, ele finaliza dizendo: “sempre pensei que fosses comunista”.

Acho que o registro foi no sentido de que, sendo “comunista” não seria “democrata”. Nem entro nesta questão, por ultrapassada. Como já disse, discordo do governo que está aí, independente da roupagem dos que integram a chamada “base de sustentação”. Entretanto, tenho discordância ainda maior com a pregação reacionária por um golpe militar. 

E se, ao me opor à pregação por um golpe militar, reavivarei a pecha de “comunista”, para os reacionários, isto não me incomoda. Vou começar a organizar um “soviet” para derrubar a burguesia aqui do Bairro Bom Fim. Vamos começar “ocupando” as cervejarias e galeterias, bebendo todas e comendo coxinhas.


Nota: postado no facebook em 19.03.16


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