REMINISCÊNCIAS...
Moacir Donato
Moacir Donato
Neste artigo, diferentemente das edições anteriores, peço licença aos leitores para abordar um tema de ordem pessoal: minha relação com a terra natal, à qual chamo carinhosamente de "minha aldeia", a nossa Santana da Boa Vista. As próximas linhas, alerto, são escritas com a emoção de quem, mesmo vivendo distante há vários anos, jamais rompeu o "cordão umbilical" com a querência.
Numa rápida retrospectiva, lembro o ano de 1969, quando com 11 anos de idade vim lá do Rincão dos Dutras para a cidade, à cavalo, para estudar a 5.ª série no velho Grupo Escolar Jacinto Inácio. Depois veio o ginásio e, no ano de 1974, a partida para Caçapava do Sul, onde cursei o ensino médio, concluindo em 1976 o Curso de Técnico em Contabilidade. Mais uma partida, em 1977, aos 19 anos, para Caxias do Sul, em busca de trabalho que permitisse continuar os estudos.
Trabalhando de dia e estudando à noite, em 1982 conclui o Curso de Direito, permanecendo ainda em Caxias até o início de 1984, quando "joguei para o alto" um bem remunerado emprego, com perspectivas de rápida ascensão profissional, retornando à Santana para exercer a advocacia, propósito mantido desde que daqui saíra 10 anos antes. Naquele regresso imaginava eu, aos 26 anos de idade, ser aqui o meu lugar definitivo.
O Brasil vivia um tempo de transição, a caminho da redemocratização. A campanha pelas "Diretas Já", a eleição indireta de Tancredo Neves, sua morte e a posse de Sarney. Nos distantes rincões, longe dos grandes centros, entretanto, o regime de exceção mantinha seu poderio praticamente intacto. Aqui não era diferente. Os mecanismos de exercício do poder eram os mais diversos, desde a cooptação, como oferta de um emprego público, até a intimidação por meios menos sutis...
Antes mesmo de eu chegar à terra natal, já haviam acenado com a oferta de um contrato para lecionar na Escola de Segundo Grau, no lugar de um professor que só aguardava substituto para pedir transferencia. Era a cadeira de Direito e Legislação, na medida para o jovem advogado. Havia uma condição: assinar ficha no "partido do governo". Eu disse "NÃO" e, como naquele conto de Aparício Silva Rillo, "foi assim que começou a briga...". Em lugar do professor de direito, nascia o ativista político. A etapa seguinte é uma longa história, que o espaço de um artigo não comporta.
Como consequencia de meu envolvimento no centário político, sofri sérias restrições de ordem profissional. Não conseguindo "comprar", nem "assustar", tentaram me "matar de fome". Foi na busca do "pão de cada dia", já com um filho para criar, que em 1992 aceitei uma proposta de trabalho e vim parar na Capital. As circunstâncias fizeram com que aqui permanecesse, mas sempre vinculado aos assuntos de Santana. Em determinado período, por razões diversas, vivi uma espécie de auto-exílio. Foram tempos de amargo sentimento, mas também de reflexões e de amadurecimento.
Finalmente, entre os anos de 2005 e 2006 iniciei o regresso ao convívio com minha terra e com minha gente. Este convívio foi acentuado nestes últimos dois anos. Foi um tempo em que, além da atividade profissional, retomei contatos com velhos amigos e tive a felicidade de construir novos relacionamentos, de amizade, de trabalho e de exercício da cidadania. Tão próximo consegui estar que muitas pessoas perguntavam se eu havia retornado a residir em Santana.
De todas as atividades em que participei neste "regresso" a Santana, a que mais me envolveu emocionalmente foi a oportunidade de participar da "reconstrução" do Clube do Livro Coriolano Castro, com a reabertura da biblioteca, com a volta à circulação do Clarim Santanense e com o privilégio especial de entrar semanalmente nos lares de meus conterrâneos por meio das ondas de nossa Rádio Santana, no Programa Comunidade & Cidadania que completa dois anos no ar.
Como alertei no início, este artigo tem um caráter pessoal, inspirado na emoção. É uma janela escancarada do sentimento do autor. E este sentimento é de realização, de satisfação pela oportunidade do convívio e pelos vínculso afetivos e institucionais construídos. É, sobretudo, de gratidão pela acolhida e pela parceria de tantos quantos ousaram sonhar os mesmos sonhos. Oxalá 2009 permita-nos continuar sonhando juntos!
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Nota: Esta foi a última edição do Clarim Santanense, que circulou em dezembro/2008.
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