Seguidores

segunda-feira, 28 de maio de 2012

BRASIL 2017 - III



Sumário:
Apresentação (Postagem I)
1. Prólogo (Postagem II)
2. Origens: Descoberta, Colônia e Monarquia (Postagem II)
3. A República em Ciclos
3.1 República Velha
3.2 Governo Getúlio Vargas
3.3 Anos Dourados
3.4 Anos de Chumbo
3.5 Abertura e Democracia
4. Nação e Cidadania
5. O Sexto Ciclo:  Uma encruzilhada no caminho
6. Palavras finais (ou iniciais...)



3. A República em Ciclos: República Velha, Governo Getúlio,
    Anos Dourados, Anos de Chumbo, Abertura e Democracia

3.1   A República Velha

O período denominado Republica Velha durou 41 anos, iniciando com a proclamação da república, em 1889, e culminando com a Revolução de 1930. O advento da república não foi, na completa acepção da palavra, uma revolução. Seguindo os moldes da América Latina, onde “as fardas costumam falar em nome da sociedade”, a proclamação da república foi uma quartelada, um golpe militar, representando interesses de parcelas das oligarquias dominantes.

Neste artigo não há espaço, nem é a intenção, para aprofundar a análise sobre o que mais convinha ao país, se o regime monárquico ou republicano. O que releva registrar é que a velha aristocracia logo se acomodou ao novo regime, mantendo o status quo por meio da prática do coronelismo. Sob a égide da república, no lugar dos barões agora os coronéis detém o poder regional.

O longo período da República Velha foi caracterizado por agitação política, com movimentos rebeldes localizados (como no Rio Grande do Sul, as revoluções de 1893 e 1923, dentre outras escaramuças), e por eleições fraudulentas. Daí surge a figura do “Cavalo do Comissário”, ou seja, do candidato da situação que terá, se necessário, o poder de “arrumar” os resultados eleitorais.

Aspecto importante a destacar é que menos de 5% da população em idade adulta tinha direito ao voto, considerando-se que analfabetos e mulheres não tinham a condição de eleitores.

Neste período, enquanto transcorria a segunda fase da Revolução Industrial (o automóvel, o avião e outros avanços), enquanto a humanidade estremecia com a Primeira Guerra Mundial (1914/1918), o Brasil movia-se a passos lentos sob a hegemonia da “Política Café com Leite” (domínio da política nacional por São Paulo e Minas Gerais).

Por fim, o desgaste do sistema político dominante, os efeitos da crise econômica de 1929 (quebra da Bolsa de Nova York e a Crise do Café no Brasil), além de fatores secundários; foram responsáveis pelo fim da “Política Café com Leite” e pela Revolução de 1930, levando Getúlio Vargas ao poder e encerrando o ciclo da República Velha. 

domingo, 6 de maio de 2012

ESTATÍSTICAS DE ACESSOS AO BLOG

TEXTOS MAIS ACESSADOS/Data da Postagem
(posição em 06.05.12)


Em todo o período:
1.º - Aniversário do Clube do Livro - 18.03.12
2.º - Notificação à Diretoria do Clube do Livro - 07.08.11
3.º - Artigo Publicado no Clarim Santanense - 24.07.11
4.º - O Plátano Falante - 14.08.11
5.º - À Memória de Eraldo Freitas da Silva - 24.07.11


No último mês:
1.º - Carta Aberta ao Presidente do Clube do Livro - 15.04.12
2.º - Um Domingo de Sol - 22.04.12
3.º - O Plátano Falante - 14.08.11
4.º - Aniversário do Clube do Livro - 18.03.12
5.º - O Cuidador da Vaca - 18.03.12
.........................................................................
Série de postagens em publicação:  BRASIL 2017

SÓ EM CASO DE PERCISÃO (Conto)


Mês de março. Sol quente. Tempo da colheita de arroz. Quaresma. Tempo em que as cobras estão mais venenosas, segundo a tradição local.

Estamos em um lugar qualquer, num cantão de mundo, distante da chamada “civilização”, onde ainda predominava a “lei do mais forte”. Os descendentes dos primeiros colonizadores, com sobrenomes nobres, dedicam-se à pecuária e alguns, mais recentemente, à monocultura em grandes extensões de terra - primeiro o arroz, depois a (ou o) soja.

Os outros, negros, mulatos, pardos, ou são “agregados” das fazendas, morando no fundo das invernadas, ou peões das grandes lavouras, alguns já morando em corredores. Uns poucos possuem pequenas extensões de terras, onde se dedicam a agricultura de subsistência, não dispensando o complemento de renda como peões, da fazenda ou da lavoura, num disfarçado regime de servidão.

Bem, deixemos as considerações sociológicas e vamos ao fato daquela tarde mormacenta.

§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§

O bolicho de campanha estava movimentado. Homens e rapazotes dividiam-se em grupos. Uns jogando cartas, outros bebendo e contando pataquadas. As mulheres, na capela não muito distante, faziam orações, por si e pelos maridos e filhos. Os homens do lugar também acreditavam nos santos, embora confiassem mais nas armas...

Quase sem que percebam chega um tipo diferente, montando um cavalo bem encilhado, que amarra um pouco distante dos demais e dirige-se à porta do bolicho. As botas fazem ruído forte no pedregulho, em compasso com o tilintar das enormes esporas.

O traje, um misto de gaúcho e caubói. Chapéu de aba grande, com os lados dobrados para cima. Na cintura, pendia um revólver calibre 38, de marca S&W. No coldre de arma, três fileiras de balas. Completando a figura, uma faca coqueiro com lâmina de uns trinta centímetros, atravessada nas costas.

O forasteiro para na porta e fala alto e grosso: “Buenas tardes!!!” Algumas respostas, resmungos e silêncios... O tipo valentão fala para o bolicheiro: “Cachaça para todo mundo, por minha conta. Enche aquele ali (apontando para um copo grande)”.

Servida a pinga, o valentão joga uma “pelega” de cinco contos de réis sobre o balcão, apanha o copo, vai até a porta e despeja um pouquinho, rugindo: “é para o Santo...”. Na sequência, passa o copo para o mais próximo, que bebe e passa para o outro, assim continuando.

O clima é tenso. Já quase não se fala no bolicho. Os carteadores pararam o jogo. Nisto, o copo chega a um negrinho meio pardo, estatura franzina, aparentando vinte e poucos anos. Ele passa para o próximo sem beber. O valentão, atento à sena, berra: “Tu não bebeu, negro!”. O preto responde, num fio de voz: “Eu não bebo, senhor”.

O valentão, com fisionomia de contrariado, resmunga: “Há, tu não bebe...”. Olhou para o dono do bolicho e determinou: “Serve meio copo, naquele ali”, apontando para um copo na prateleira. O bolicheiro serviu o meio copo. O valentão, gritou: “Completa com farinha de mandioca”. Ao que o comerciante atendeu prontamente.

Ato contínuo o valentão, chispando de raiva, tira o revolver do coldre, enfiando o cano no copo e mexendo a farinha com a cachaça. Volta-se para o negro e alcança o copo, agora já com uma colher dentro, dizendo: “Beber tu não bebe, mas comer tu vai comer, porque eu estou pagando e não aceito desfeita”. Continua com o revólver na mão, enquanto o negro começa a encher a boca com colheradas daquela improvisada paçoca.

§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§

Meia-tarde. Calor, mormaço. Silêncio no bolicho. Até dá para ouvir as mulheres, na capela, cantando “Ave Maria! Ave Maria! Ave...”.

Os homens estão calados. Em algumas caras percebe-se que estão se divertindo com a cena; em outras, visivelmente, o medo. Um relógio de parede, daqueles antigos, começa a badalar marcando quatro horas. Alguns olhares desviam-se para a direção do relógio.

Em uma fração de segundos, impossível de perceber como tudo começou, o negro cuspe uma porção da paçoca em direção aos olhos do valentão. No mesmo movimento joga-se ao chão, com seu corpo parecendo um “xis”: uma perna no chão, um braço voltado para baixo e outro para o alto e, finalmente, a segunda perna em direção à cabeça do valentão, desferindo uma patada certeira.

Ninguém percebeu como o rapaz apanhou o revolver e, de imediato, alcançou-o ao comerciante. Ágil, volta ao valentão e aplica-lhe um violento pontapé na região de sua “masculinidade”.

No chão, o valentão encontra-se fora de combate, contorcendo-se e com as mãos “naquele lugar”, o do segundo golpe, olhos esbugalhados e um rosnar que denuncia mais dor do que raiva.

O preto franzino, serenamente, apanha seus poucos pertences e dirige-se à porta para sair do local. Um dos presentes, recuperando-se do estado de letargia coletiva, pergunta: “Ô negro, onde aprendeste isso”.

O rapazote responde, apressado e com voz fraca:
“Isto é capoeira. Aprendi com meu avô, que foi escravo. Mas ele disse para usar só em caso de percisão.”  Pediu licença e desapareceu na curva da estrada. Da capela, ainda vinha o som de “Ave Maria! Ave Maria! Ave...”.

 Nota: 
 Núcleo do texto adaptado de conto de domínio público, transmitido pela tradição oral.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Brasil 2017 - II


Sumário:
Apresentação (Postagem I)
1. Prólogo
2. Origens: Descoberta, Colônia e Monarquia
3. A República em Ciclos
3.1 República Velha
3.2 Governo Getúlio Vargas
3.3 Anos Dourados
3.4 Anos de Chumbo
3.5 Abertura e Democracia
4. Nação e Cidadania
5. O Sexto Ciclo:  Uma encruzilhada no caminho
6. Palavras finais (ou iniciais...)


1.  Prólogo

“O presente é o futuro do passado.”

Esta afirmativa, extraída de algum texto sobre estratégia, tanto pode se aplicar à trajetória e carreira pessoal, ao planejamento estratégico de uma empresa ou, em âmbito mais abrangente, à história de um país.

Um olhar estendido ao passado, numa visão retrospectiva de nossa história, certamente demonstrará que o cenário vivido nos dias atuais é uma conseqüência de fatos, decisões e posturas adotadas em tempos pretéritos.

Se isto for verdadeiro, a decorrência lógica é que os caminhos que nos levam ao futuro estão sendo escolhidos no presente. Em outras palavras, com as opções, decisões, atos e atitudes de hoje, estamos desenhando o cenário do amanhã.

Esta é, em síntese, a idéia que norteia o texto. Sem qualquer pretensão científica, busca estimular uma reflexão sobre o destino de nosso país em uma perspectiva de futuro próximo, tomando como referências os diversos ciclos da história, o cenário contemporâneo e as tendências projetadas.

Ao final, o leitor não encontrará uma conclusão, mas alternativas de destinos, as quais, como na programação de uma viagem, poderão servir de subsídio para a escolha do caminho e dos meios para o percurso.

2. Origens: Descoberta, Colônia e Monarquia

Partindo-se do fato que a história oficial chama de “descoberta”, podemos constatar que os “descobridores” portugueses, na verdade, fizeram uma apropriação de terras que já tinham dono.  Foi assim em todo o continente americano, iniciando com a exploração das riquezas e culminando com o extermínio dos habitantes nativos. A história escrita e ensinada pelo “homem branco” nunca destinou muito espaço para este capítulo.

A divisão de ciclos da história geral mostra que o período da Idade Média encerrou-se próximo do ano 1500, época das grandes navegações e descobertas.  Nesta perspectiva de tempo, o período do Brasil Colônia coincidiria com a chamada Idade Moderna, ciclo de grandes transformações na Europa.

Tal conclusão, entretanto, é falsa. Enquanto no Velho Mundo ocorriam mudanças políticas, econômicas e sociais, os exploradores portugueses transportaram para o Brasil o defasado modelo da Idade Média. Aqui, os feudos foram representados pelas capitanias hereditárias e as relações de poder, do ponto de vista humano, seguiam padrões piores do que aqueles vigentes ao final do medievo na Europa.

Este ciclo de costumes e práticas da Idade Média, no Brasil, perdurou durante todo o período colonial, sendo lícito concluir-se que já iniciamos nossa história com atraso de aproximadamente 300 anos em relação ao chamado mundo civilizado.

A independência do Brasil, já no Século XIX, em muitos aspectos, não mudou este cenário de idade média. Como exemplo, veja-se o regime de escravidão dos negros, que permeou quase todo o período da monarquia. Uma sociedade que pratica o tráfico e a escravidão de seres humanos, certamente ainda não alcançou os ciclos definidos como Idade Moderna e Idade Contemporânea.

Assim chegamos às portas do Século XX. Não bastassem os 300 anos de atraso em relação ao processo civilizatório, representados pelo período colonial, é comum afirmar-se que a Proclamação da República foi a nossa Revolução Francesa com 100 anos de atraso.

Neste aspecto, em que pesem os 100 anos, é temerário afirmar-se que a instauração da república representou, na prática, a adoção do conjunto de ideais propugnados ao som da Marselhesa. Os primeiros dois ciclos da história republicana constituem um alerta aos mais ufanistas. Os que vieram depois, de igual sorte, não significaram grande evolução, especialmente em termos do exercício da cidadania. 

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O CLUBE DO LIVRO EM TÓPICOS


BIBLIOTECA PARA QUE?

A origem do Clube do Livro Coriolano Castro, que ao início chamou-se provisoriamente apenas de “Clube do Livro”, foi uma biblioteca, fundada e mantida pelos associados e, especialmente, pelas primeiras diretorias.

Conforme registrado na Notificação à Diretoria do Clube do Livro (ver postagem neste blog, em agosto de 2011), com o surgimento da rádio comunitária a biblioteca foi relegada a segundo plano, chegando ao ponto de ser praticamente desativada, com sério prejuízo ao acervo, tendo livros danificados e extraviados. Esta situação começou a ser resgatada no ano de 2007, com a instalação da sede do Clube do Livro no quiosque da Praça Jacinto Inácio, com espaço próprio para os livros.

Mais recentemente, já na atual gestão de diretoria, o Diretor de Biblioteca Renato Soares conseguiu importante doação de livros do acervo da antiga CRT/Brasil Telecom. Recebida a doação, o espaço junto ao atual prédio sede do Clube do Livro tornou-se insuficiente, sendo locado um espaço próprio  e designada uma funcionária para atendimento da biblioteca.

Recentemente, com o pedido de demissão da funcionária que atendia a biblioteca, o presidente do Clube do Livro decidiu que não haverá substituição e,  também, que os livros seriam transferidos de volta para o prédio onde funciona a rádio comunitária. É certo que o espaço não comporta o acervo agora ampliado. O Diretor Renato Soares divergiu desta decisão e está contratando, às suas expensas, uma pessoa para dar continuidade no atendimento ao público.

O que se sabe é que as medidas do todo poderoso presidente em relação à biblioteca são, na verdade, uma atitude de retaliação ao Diretor Renato Soares porque este vem fazendo questionamentos sobre a lisura e transparência da atual gestão, inclusive formalizando pedidos de informações não respondidos ou com respostas evasivas. 

Renato Soares é um dos poucos integrantes da atual Diretoria que tem vínculo com a história do Clube do Livro, do qual foi presidente em um tempo em que a diretoria se cotizava para pagar as despesas da instituição, diferentemente das últimas gestões quando diretores se fazem, ou fizeram,  remunerar por “serviços prestados à rádio” ou gozam de mordomias às custas do Clube do Livro.

CULTURA, QUE CULTURA?

Dentre os fins estatutários do Clube do Livro está a disseminação da cultura. Daí sua primeira atividade ter sido a criação de uma biblioteca. Quando eu apresentava o programa de rádio do Clube do Livro, nos anos 2007 e 2008, pautávamos os espaços com temas voltados às finalidades estatutárias. A própria trilha sonora do programa, entre os blocos, buscava refletir esta finalidade, rodando MPB ou música nativista genuína, jamais músicas no estilo “vai abaixando, vai abaixando...”.  É triste ver uma instituição cultural reduzida a este nível.

Na condição de sócio fundador, entristece ver o desvirtuamento das finalidades do Clube do Livro, que virou simples “barriga de aluguel” da rádio comunitária, sendo esta transformada em trampolim para promoção pessoal de uns e alavanca de pretensões diversas aos fins que originaram a instituição. Uma mistura de autoritarismo e deslumbramento pauta a dupla de diretores/locutores que vem apresentando os últimos programas da instituição, aos sábados, onde esbanjam auto elogios e justificativas (fica até difícil entender o que tanto justificam?).

 As comemorações do aniversário do Clube do Livro (sempre referidas por uma diretora/locutora como o “aniversário da rádio”) foram feitas com “fests” e boates  animadas ao som de “funknejo” (como é mesmo que se escreve este negócio?). Não se teve notícia de um sarau literário, de uma palestra, enfim, de alguma atividade efetivamente cultural.

Nos últimos tempos, em falta de disseminação do conhecimento, da realização de atividades culturais, até as comemorações do aniversário da instituição e a trilha sonora do programa oficial viraram vulgaridade. Para ser franco e falar no popular: virou chinelagem...

CASO DE POLÍCIA

A última reunião da Diretoria do Clube do Livro, realizada na semana passada, teve a presença de 5 participantes, dentre estes o Presidente e o Diretor Renato Soares. Ao tratar de questões envolvendo a transferência da biblioteca o assunto pegou fogo, com a contestação do Diretor Renato, que também renovou questionamentos sobre a lisura e transparência dos atos de gestão, fazendo com que o presidente ficasse ofendido, já que seus atos, ao que parece, estão fora de questionamentos.  O assunto foi parar na polícia, com registro de ocorrência realizado pelo ofendido presidente. O Diretor Renato já prestou seu depoimento e o caso deverá chegar à Justiça.

É a isto que o atual presidente, com a conivência de uns e a omissão de outros, está levando uma instituição como o Clube do Livro Coriolano Castro, onde reuniões de diretoria viram “caso de polícia”. Na verdade, o que está a merecer a investigação da polícia não são os questionamentos ou manifestações do Diretor Renato Soares, mas sim a falta de transparência na aplicação dos recursos do Clube do Livro, dentre estes recursos públicos repassados pela Prefeitura e Pela Câmara Municipal, incluindo aí a sonegação fiscal da previdência.

Por oportuno, em um programa de rádio, já comentado na recente postagem Carta Aberta ao Presidente do Clube do Livro, o Senhor Presidente disse que vem sendo questionado ou criticado “por um ou dois”. Agora denunciou um. Diante dos fatos, associo-me aos questionamentos e dúvidas levantadas pelo Diretor Renato Soares. Denuncie mais um, Senhor Presidente: são dois.

SEM MEDO E SEM PREÇO

Para concluir, conto uma pequena história dos tempos da ditadura. Tempos duros, em que os afilhados do regime podiam tudo, como acontece nos regimes de força.

Na delegacia de polícia de Santana trabalhava um jovem inspetor, responsável pelo registro de veículos, na época feito na polícia civil. Chega na delegacia um cacique político local, notoriamente detentor de contatos com altas figuras do regime. Vai registrar um caminhão de sua frota e orienta o jovem policial para alterar o ano de fabricação no registro, colocando o veículo como mais novo.

O policial reage dizendo: “não posso fazer isso, é ilegal”. O cacique político, do alto de seu poder, afirma: “faça que tu não vai te arrepender, vai ser bom para ti”. Perplexo, indaga o servidor público: “Como assim?”. Recebe como resposta: “Tu vai poder ficar aqui enquanto tu quiser”. O policial, já impaciente com a situação, replica indagando: “E se eu não fizer, tu vai me transferir daqui?”; ouvindo em tom autoritário: “Sim, eu posso te transferir”.

O diálogo, cujo relato ouvi já faz algum tempo, foi aproximadamente este. Pouco tempo depois o policial, que não aceitou a falcatrua proposta, foi transferido, somente retornando a Santana muitos anos depois, quando a ditadura já tinha encerrado seu ciclo. Os velhos caciques, contudo, fizeram escola, semearam sementes que germinam de tempos em tempos... E, quando um povo não tem a prática do exercício da cidadania, o autoritarismo floresce e se alimenta de gente que se assusta, que se vende, que se omite, enfim, de "chapas brancas" e "paus mandados"...

Mas nem tudo está perdido, porque ainda existem homens sem medo e sem preço. O jovem policial que não se vergou aos caciques da ditadura era Renato Soares. Os partidários do autoritarismo, os aprendizes de cacique político tem razões para não suportá-lo. Adepto da mesma causa, sou integralmente solidário à posição defendida por Renato Soares. Se necessário, estaremos juntos no banco dos réus.
.........................................................................................................

E por falar em “preço” e  em “veículos”, vai aí um hipotético anúncio (que bem poderia ter sido publicado no Clarim Santanense; ops, este também está sob censura):

“Vendo automóvel Fiat Uno, ano 2000, no estado. Um mimo de carro, andando e tudo o mais. Você vai se amarrar nele! Preço de barbada: só R$ 13.500,00 (nem precisa consultar tabelas e cotações, porque é uma pechincha). Nota Fiscal no porta-luvas."
 ..........................................................................................................

Nota: Já divulgado, ao final da postagem Carta Aberta ao Presidente do Clube do Livro, meu endereço para intimações ou citações.


domingo, 22 de abril de 2012

BRASIL 2017 - I


Apresentação:

Nos anos de 2007 e 2008, último período em que integrei a Diretoria do Clube do Livro Coriolano Castro, produzi e apresentei o programa do Clube do Livro na Rádio Santana, sob o título de “Comunidade & Cidadania”. Compartilhando o espaço com outros integrantes da diretoria, sempre procuramos divulgar informações de interesse da comunidade e, também, atender aos fins culturais da instituição, abordando temas voltados à disseminação do conhecimento.

Dentro do espaço cultural, para o qual reservava um dos 3 ou 4 blocos do programa, produzi e apresentei duas séries. A primeira, no ano de 2007, intitulada “Retrospectivas de Nossa História”, fazendo uma abordagem iniciada na Idade Clássica, passando pela Idade Média, enfatizando aspectos da América Pré-Colombiana e a situação de seus habitantes, finalizando com os ciclos do Brasil Colônia, Monarquia e República, ampliando as matérias sobre cada ciclo da república.

No ano de 2008, já com o Clarim Santanense circulando novamente, produzi uma série de artigos publicados neste jornal, também apresentados na Rádio Santana, em alusão aos 40 anos das eleições municipais de Santana da Boa Vista, no ano em que se realizava a 10.ª eleição. Exatamente neste ano em que se realizam novamente eleições municipais (nossa 11.ª), vou reproduzir aquela série de artigos neste espaço, após a publicação do texto “Brasil 2017”.

A redação deste trabalho, Brasil 2017, tem sua origem naquela série produzida para a Rádio Santana em 2007. Ao pesquisar os diferentes períodos da história da república, deparei-me com uma sequencia de tempos que apontavam para a conclusão do ciclo então vivido, o da redemocratização do país, iniciado em 1985 com a eleição indireta do primeiro presidente civil, conforme demonstrado a seguir:

1.º Ciclo - República Velha - 1889/1930 (41 anos);
2.º Ciclo - Governo Getúlio Vargas - 1930/1945 (15 anos);
3.º Ciclo - A Redemocratização - 1946/1964 (18 anos);
4.º Ciclo - Governos Militares - 1964/1985 (21 anos);
5.º Ciclo - Período Contemporâneo - 1985... (até 2007, 22 anos).

Analisando estes dados, cheguei à conclusão de que o último ciclo, da redemocratização e consolidação da democracia no país, estava chegando a seu final, em decorrência dos resultados alcançados e pelo próprio decurso do tempo, considerado com a duração dos ciclos anteriores. Com o advento das próximas eleições gerais no ano de 2010 e o final do governo vigente, chegaríamos ao final do ciclo.

À época, entre os anos de 2007 e 2008, tive a oportunidade de abordar o tema em alguns cursos e palestras, sustentando a tese de que a partir de 2011 estaríamos iniciando o 6.º Ciclo da história republicana do país, o que significaria uma encruzilhada sobre os rumos a seguir. Hoje, após a crise econômica mundial de 2009 e a eleição da primeira mulher para a presidência do país, em 2010, não tenho dúvidas de que iniciamos um novo ciclo histórico.

É certo que a transição entre ciclos da história não é claramente percebida em seu início. Somente o transcurso do tempo, com a devida análise de causas e consequências, permite o registro de sua ocorrência.  Nesta conformidade, é possível que transcorram, no mínimo, uns 5 ou 6 anos para que tenhamos a noção clara do encerramento do ciclo anterior. Daí o título “Brasil 2017”, numa perspectiva de futuro onde pretendo concluir com alguns questionamentos sobre rumos a serem construídos a partir do presente.

Por fim, cumpre alertar aos leitores de que, não tendo o autor uma formação em história ou ciência política, o presente trabalho não vem revestido de rigor científico, podendo apresentar falhas ou equívocos de interpretação. Contudo, não tenho a pretensão de ministrar lições de história. Como interessado pelo tema, notadamente no que diz respeito ao exercício da cidadania em nosso país, pretendo compartilhar ideias, complementando-as com a colaboração de tantos quantos me honrarem com a sua participação neste espaço.

A seguir, a publicação de BRASIL 2017 (em módulos semanais).
 ...........................................................................................


 BRASIL 2017

1. Prólogo
2. Origens: Descoberta, Colônia e Monarquia
3. A República em Ciclos
3.1 República Velha
3.2 Governo Getúlio Vargas
3.3 Anos Dourados
3.4 Anos de Chumbo
3.5 Abertura e Democracia
4. Nação e Cidadania
5. O Sexto Ciclo:  Uma encruzilhada no caminho
6. Palavras finais (ou iniciais...)

UM DOMINGO DE SOL


Porto Alegre. Outono, mês de abril. Um domingo de sol. Nada de excepcional, além da inspiração para escrever uma crônica de domingo, sem pretensões literárias, simples registro de fatos e impressões do cotidiano.

Uma manhã rotineira, acordar cedo, cevar o mate, colocar um CD a rodar (esqueci que CDs não rodam, mas deixemos assim) e chimarrear sem pressa. Nenhum programa prévio, salvo o convívio em família, uma caminhada no parque, “secar” o Internacional (o Grêmio jogou ontem, ufa!!!) e, inevitável, dar uma passada na agenda dos compromissos de segunda-feira.

Ainda pela manhã, lembrei que o escritor Juremir Machado estaria autografando seu livro “Getúlio”, no Brique da Redenção e, segundo escreveu em sua coluna no Correio do Povo de sábado, buscando um contato direto com os leitores. Já tenho o livro, mas decidi ir ao evento apanhar um exemplar para presentear um aniversariante dos próximos dias. Com a mateira a tiracolo, fui ao Parque da Redenção para o encontro com o escritor.

A fila de autógrafos, o papo com outros leitores diários do jornalista, troca de referências sobre sua obra e, finalmente, meu contato com o autor de alguns dos livros de minha estante. Cumprimentos, papo rápido e saio todo contente com o livro autografado. Fico a pensar no que diria ao Juremir se tivesse mais tempo. Me identifico muito  com os textos diários deste jornalista sem papas na língua, que se autodenomina “escritor maldito”.

Temos afinidades. Ambos vivemos a infância nos campos de Santana, ele no Distrito de Palomas, em Santana do Livramento, eu no Rincão dos Dutras, em Santana da Boa Vista; ele relata suas andanças em tropeadas com o pai, na fronteira, eu  fiz tropeadas com meu pai nos campos de Santana, Piratini e Pinheiro Machado. Ambos habitamos o Bairro Bom Fim, na capital. Somos da mesma geração, eu ligeiramente mais velho.

Perdoem a falta de modéstia na comparação, mas acho que somos ambos malditos, ele um maldito notório, eu um maldito anônimo. Enquanto o reconhecido jornalista chega diariamente a milhares de leitores e ouvintes, com sua coluna no Correio do Povo e espaço na Rádio Guaíba, eu festejo algumas dezenas de acessos a meu blog em uma semana e estou censurado na Rádio Santana (guardadas as proporções, neste aspecto acho que sou mais maldito).

Continuo a caminhada pelo espaço dominical do Brique da Redenção. Gente de todas as idades, pais com bebês em carrinhos, casais de namorados, idosos, gente junto e gente avulsa, verdadeira fauna humana. Nos gestos e nos olhares um ponto em comum, a descontração e a serenidade. É um espaço de convivência pacífica onde até as rivalidades político/eleitorais são respeitadas, cada um em seu espaço, cada um com sua bandeira, lugar para todos.

Outro aspecto singular é a presença dos artistas de rua, em suas diversas formas de manifestação. Detenho-me a ouvir um cantor, tocando violão e desfilando seu repertório de MPB. O velho artista, um preto de cabelo grisalho, tem aquela voz forte e ao mesmo tempo suave dos irmãos afro. Conversando com sua esposa, que comercializa seus CDs, fiquei sabendo que o artista foi cantor da noite. Comprei um CD, cumprimentei o cantor e saí deliciado com a harmonia do violão e voz.

Enfim, o relógio biológico informa que é hora de voltar para casa. Retorno sem pressa, com o mate lavado, um livro e um CD em baixo do braço. Já passa do meio-dia, hora do almoço.  Alimento para o corpo, porque o espírito já está alimentado pelo convívio com o ambiente saudável, pelo encontro com meu “escritor maldito preferido”, pelas cores e sons do parque, pela sinfonia da vida.