Mês de março. Sol quente. Tempo da colheita de arroz.
Quaresma. Tempo em que as cobras estão mais venenosas, segundo a tradição
local.
Estamos em um lugar qualquer, num cantão de mundo,
distante da chamada “civilização”, onde ainda predominava a “lei do mais
forte”. Os descendentes dos primeiros colonizadores, com sobrenomes nobres,
dedicam-se à pecuária e alguns, mais recentemente, à monocultura em grandes
extensões de terra - primeiro o arroz, depois a (ou o) soja.
Os outros, negros, mulatos, pardos, ou são “agregados”
das fazendas, morando no fundo das invernadas, ou peões das grandes lavouras,
alguns já morando em corredores. Uns poucos possuem pequenas extensões de terras,
onde se dedicam a agricultura de subsistência, não dispensando o complemento de
renda como peões, da fazenda ou da lavoura, num disfarçado regime de servidão.
Bem, deixemos as considerações sociológicas e vamos ao
fato daquela tarde mormacenta.
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O bolicho de campanha estava movimentado. Homens e
rapazotes dividiam-se em grupos. Uns jogando cartas, outros bebendo e contando
pataquadas. As mulheres, na capela não muito distante, faziam orações, por si e
pelos maridos e filhos. Os homens do lugar também acreditavam nos santos,
embora confiassem mais nas armas...
Quase sem que percebam chega um tipo diferente,
montando um cavalo bem encilhado, que amarra um pouco distante dos demais e
dirige-se à porta do bolicho. As botas fazem ruído forte no pedregulho, em
compasso com o tilintar das enormes esporas.
O traje, um misto de gaúcho e caubói. Chapéu de aba
grande, com os lados dobrados para cima. Na cintura, pendia um revólver calibre
38, de marca S&W. No coldre de arma, três fileiras de balas. Completando a
figura, uma faca coqueiro com lâmina de uns trinta centímetros, atravessada nas
costas.
O forasteiro para na porta e fala alto e grosso:
“Buenas tardes!!!” Algumas respostas, resmungos e silêncios... O tipo valentão
fala para o bolicheiro: “Cachaça para todo mundo, por minha conta. Enche aquele
ali (apontando para um copo grande)”.
Servida a pinga, o valentão joga uma “pelega” de cinco
contos de réis sobre o balcão, apanha o copo, vai até a porta e despeja um
pouquinho, rugindo: “é para o Santo...”. Na sequência, passa o copo para o mais
próximo, que bebe e passa para o outro, assim continuando.
O clima é tenso. Já quase não se fala no bolicho. Os
carteadores pararam o jogo. Nisto, o copo chega a um negrinho meio pardo,
estatura franzina, aparentando vinte e poucos anos. Ele passa para o próximo
sem beber. O valentão, atento à sena, berra: “Tu não bebeu, negro!”. O preto responde,
num fio de voz: “Eu não bebo, senhor”.
O valentão, com fisionomia de contrariado, resmunga:
“Há, tu não bebe...”. Olhou para o dono do bolicho e determinou: “Serve meio
copo, naquele ali”, apontando para um copo na prateleira. O bolicheiro serviu o
meio copo. O valentão, gritou: “Completa com farinha de mandioca”. Ao que o
comerciante atendeu prontamente.
Ato contínuo o valentão, chispando de raiva, tira o
revolver do coldre, enfiando o cano no copo e mexendo a farinha com a cachaça. Volta-se
para o negro e alcança o copo, agora já com uma colher dentro, dizendo: “Beber
tu não bebe, mas comer tu vai comer, porque eu estou pagando e não aceito
desfeita”. Continua com o revólver na mão, enquanto o negro começa a encher a
boca com colheradas daquela improvisada paçoca.
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Meia-tarde. Calor, mormaço. Silêncio no bolicho. Até
dá para ouvir as mulheres, na capela, cantando “Ave Maria! Ave Maria! Ave...”.
Os homens estão calados. Em algumas caras percebe-se
que estão se divertindo com a cena; em outras, visivelmente, o medo. Um relógio
de parede, daqueles antigos, começa a badalar marcando quatro horas. Alguns
olhares desviam-se para a direção do relógio.
Em uma fração de segundos, impossível de perceber como
tudo começou, o negro cuspe uma porção da paçoca em direção aos olhos do
valentão. No mesmo movimento joga-se ao chão, com seu corpo parecendo um “xis”:
uma perna no chão, um braço voltado para baixo e outro para o alto e,
finalmente, a segunda perna em direção à cabeça do valentão, desferindo uma
patada certeira.
Ninguém percebeu como o rapaz apanhou o revolver e, de
imediato, alcançou-o ao comerciante. Ágil, volta ao valentão e aplica-lhe um
violento pontapé na região de sua “masculinidade”.
No chão, o valentão encontra-se fora de combate,
contorcendo-se e com as mãos “naquele lugar”, o do segundo golpe, olhos esbugalhados
e um rosnar que denuncia mais dor do que raiva.
O preto franzino, serenamente, apanha seus poucos
pertences e dirige-se à porta para sair do local. Um dos presentes,
recuperando-se do estado de letargia coletiva, pergunta: “Ô negro, onde
aprendeste isso”.
O rapazote responde, apressado e com voz fraca:
“Isto é capoeira. Aprendi com meu avô, que foi
escravo. Mas ele disse para usar só em caso de percisão.” Pediu licença e desapareceu na curva da
estrada. Da capela, ainda vinha o som de “Ave Maria! Ave Maria! Ave...”.
Núcleo do texto adaptado de conto de domínio público,
transmitido pela tradição oral.
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