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domingo, 6 de maio de 2012

SÓ EM CASO DE PERCISÃO (Conto)


Mês de março. Sol quente. Tempo da colheita de arroz. Quaresma. Tempo em que as cobras estão mais venenosas, segundo a tradição local.

Estamos em um lugar qualquer, num cantão de mundo, distante da chamada “civilização”, onde ainda predominava a “lei do mais forte”. Os descendentes dos primeiros colonizadores, com sobrenomes nobres, dedicam-se à pecuária e alguns, mais recentemente, à monocultura em grandes extensões de terra - primeiro o arroz, depois a (ou o) soja.

Os outros, negros, mulatos, pardos, ou são “agregados” das fazendas, morando no fundo das invernadas, ou peões das grandes lavouras, alguns já morando em corredores. Uns poucos possuem pequenas extensões de terras, onde se dedicam a agricultura de subsistência, não dispensando o complemento de renda como peões, da fazenda ou da lavoura, num disfarçado regime de servidão.

Bem, deixemos as considerações sociológicas e vamos ao fato daquela tarde mormacenta.

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O bolicho de campanha estava movimentado. Homens e rapazotes dividiam-se em grupos. Uns jogando cartas, outros bebendo e contando pataquadas. As mulheres, na capela não muito distante, faziam orações, por si e pelos maridos e filhos. Os homens do lugar também acreditavam nos santos, embora confiassem mais nas armas...

Quase sem que percebam chega um tipo diferente, montando um cavalo bem encilhado, que amarra um pouco distante dos demais e dirige-se à porta do bolicho. As botas fazem ruído forte no pedregulho, em compasso com o tilintar das enormes esporas.

O traje, um misto de gaúcho e caubói. Chapéu de aba grande, com os lados dobrados para cima. Na cintura, pendia um revólver calibre 38, de marca S&W. No coldre de arma, três fileiras de balas. Completando a figura, uma faca coqueiro com lâmina de uns trinta centímetros, atravessada nas costas.

O forasteiro para na porta e fala alto e grosso: “Buenas tardes!!!” Algumas respostas, resmungos e silêncios... O tipo valentão fala para o bolicheiro: “Cachaça para todo mundo, por minha conta. Enche aquele ali (apontando para um copo grande)”.

Servida a pinga, o valentão joga uma “pelega” de cinco contos de réis sobre o balcão, apanha o copo, vai até a porta e despeja um pouquinho, rugindo: “é para o Santo...”. Na sequência, passa o copo para o mais próximo, que bebe e passa para o outro, assim continuando.

O clima é tenso. Já quase não se fala no bolicho. Os carteadores pararam o jogo. Nisto, o copo chega a um negrinho meio pardo, estatura franzina, aparentando vinte e poucos anos. Ele passa para o próximo sem beber. O valentão, atento à sena, berra: “Tu não bebeu, negro!”. O preto responde, num fio de voz: “Eu não bebo, senhor”.

O valentão, com fisionomia de contrariado, resmunga: “Há, tu não bebe...”. Olhou para o dono do bolicho e determinou: “Serve meio copo, naquele ali”, apontando para um copo na prateleira. O bolicheiro serviu o meio copo. O valentão, gritou: “Completa com farinha de mandioca”. Ao que o comerciante atendeu prontamente.

Ato contínuo o valentão, chispando de raiva, tira o revolver do coldre, enfiando o cano no copo e mexendo a farinha com a cachaça. Volta-se para o negro e alcança o copo, agora já com uma colher dentro, dizendo: “Beber tu não bebe, mas comer tu vai comer, porque eu estou pagando e não aceito desfeita”. Continua com o revólver na mão, enquanto o negro começa a encher a boca com colheradas daquela improvisada paçoca.

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Meia-tarde. Calor, mormaço. Silêncio no bolicho. Até dá para ouvir as mulheres, na capela, cantando “Ave Maria! Ave Maria! Ave...”.

Os homens estão calados. Em algumas caras percebe-se que estão se divertindo com a cena; em outras, visivelmente, o medo. Um relógio de parede, daqueles antigos, começa a badalar marcando quatro horas. Alguns olhares desviam-se para a direção do relógio.

Em uma fração de segundos, impossível de perceber como tudo começou, o negro cuspe uma porção da paçoca em direção aos olhos do valentão. No mesmo movimento joga-se ao chão, com seu corpo parecendo um “xis”: uma perna no chão, um braço voltado para baixo e outro para o alto e, finalmente, a segunda perna em direção à cabeça do valentão, desferindo uma patada certeira.

Ninguém percebeu como o rapaz apanhou o revolver e, de imediato, alcançou-o ao comerciante. Ágil, volta ao valentão e aplica-lhe um violento pontapé na região de sua “masculinidade”.

No chão, o valentão encontra-se fora de combate, contorcendo-se e com as mãos “naquele lugar”, o do segundo golpe, olhos esbugalhados e um rosnar que denuncia mais dor do que raiva.

O preto franzino, serenamente, apanha seus poucos pertences e dirige-se à porta para sair do local. Um dos presentes, recuperando-se do estado de letargia coletiva, pergunta: “Ô negro, onde aprendeste isso”.

O rapazote responde, apressado e com voz fraca:
“Isto é capoeira. Aprendi com meu avô, que foi escravo. Mas ele disse para usar só em caso de percisão.”  Pediu licença e desapareceu na curva da estrada. Da capela, ainda vinha o som de “Ave Maria! Ave Maria! Ave...”.

 Nota: 
 Núcleo do texto adaptado de conto de domínio público, transmitido pela tradição oral.

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