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sexta-feira, 6 de março de 2020

CACHORRO QUE COME OVELHA - V



Como escrevi na postagem anterior desta série, publicada ontem, em 1985 fui eleito o primeiro Presidente do Setor Jovem Municipal do PMDB de Santana da Boa Vista.

Na sequência, exerci a Presidência do Diretório Municipal em três gestões, sempre chamado em momentos de crise. A primeira, a partir de 1989, depois de uma crise e divisão interna do partido iniciada em 1987 e uma pesada derrota eleitoral nas eleições municipais de 1988.

Reorganizamos o partido, buscamos a pacificação das lideranças e fizemos um planejado e permanente trabalho de organização das bases, com a instituição de núcleos em todo o interior do município. Com apenas 3 vereadores numa composição de 9 cadeiras da Câmara Municipal, fizemos uma oposição ao mesmo tempo combativa e propositiva. O resultado veio nas eleições municipais de 1992, com a eleição do Vereador Neto Rosa para Prefeito Municipal, iniciando um novo ciclo na história política do município.

Ainda durante aquela primeira gestão do Prefeito Neto Rosa, veio nova crise, com o pedido de desfiliação do vereador mais votado da bancada e o licenciamento do Presidente do Diretório Municipal. Corria o ano de 1995 quando o Vice-Presidente do Diretório do PMDB, no exercício da presidência, o saudoso líder Aníbal Rosa, me convocou para a missão.

Já residindo na Capital (desde 1992), assumi pela segunda vez a Presidência do Diretório Municipal, reconciliando o vereador “retirante”, que permaneceu no partido e veio a se eleger Prefeito nas eleições de 1996. Conduzi a “gestão da crise”, passando a ser uma espécie de “palha entre os ovos”, indo quase todos os finais de semana para a aldeia “apagar os pequenos incêndios”.  Coordenei a campanha eleitoral vitoriosa de 1996 com este papel, de “bombeiro”.

A imagem de inquietações foi refletida no “palanque da vitória”, quando a equipe de campanha entregou ao Prefeito eleito uma mala “sem alça e sem rodinhas”, com algumas pedras dentro, representando o que fora a campanha... (tenho em meus guardados uma fita de vídeo, exemplar único, que registra esse momento).

Já antes da posse, os fortes atritos entre o prefeito eleito e o que encerrava a gestão alimentava nova crise. Em 1997, mesmo após importante vitória, o cenário era de conflitos e intrigas. Novamente, sob os apelos das mais importantes lideranças do partido, fui reconduzido à Presidência, para o terceiro mandato, este encerrado em 1999.

Ainda em 1997, na condição de Presidente do Diretório Municipal e amigo pessoal de ambos, fui testemunha única do atrito final entre o novo prefeito e o anterior, em reunião para tentativa de conciliação ocorrida no meu escritório em Santana. Ao início de 1998, numa reunião preparatória da campanha das eleições gerais daquele ano, o então prefeito, na presença de dezenas de companheiros, formalizava de modo pouco civilizado sua ruptura também comigo.

Era o “final dos tempos” da união daqueles três líderes jovens. Em setembro de 1999, o Prefeito trocava de partido, levando consigo, no “cabresto”, os detentores de cargos em comissão e o valor dos depósitos das contribuições partidárias dos filiados ao PMDB, as quais viriam a sustentar sua campanha da reeleição por outro partido no ano 2000, vencendo exatamente o anterior prefeito Neto Rosa.

Na campanha eleitoral do ano 2000, igualmente participei da organização e coordenação. Uma campanha sem recursos e com ausência de expressivo contingente de companheiros que haviam “se bandeado”, pois como diz o autor da memorável obra “Antônio Chimango”, “quem tem mel para dar, junta moscas”. Após o resultado da eleição, fiz a “última fala da campanha”, em frente ao comitê. Não era candidato nem mais dirigente partidário, mas assumi essa responsabilidade. Afinal, as vitórias têm muitos pais, mas as derrotas são órfãs...

E vieram as eleições de 2004, na qual tive uma participação mais à distância (planejamento e assessoria jurídica), onde o Prefeito Neto Rosa foi eleito para o segundo mandato. Durante o período de gestão, participei ativamente do esforço para reorganização do partido, especialmente retomando a organização dos núcleos da base e da interatividade entre governo municipal e comunidade.

Nesse período, já se constatavam problemas e vícios, trazidos por alguns que haviam “ido e voltado”. Em lugar da organização partidária e da valorização da base e das relações com a comunidade, preferiam o velho modelo do populismo e do clientelismo. Eram fortes os sinais de um ciclo virtuoso que se encerrava. O resultado das eleições de 2008 apenas refletiu esta situação.

Oportuno registrar que no período compreendido entre 2005 a 2008, mesmo com atividades na capital e outras regiões do estado, voltei a ter uma presença constante em minha cidade. Nesse período, participei da reorganização do Clube do Livro Coriolano Castro, conciliando a situação de conflito gerada pela esdruxula existência de duas diretorias na mesma instituição (do Clube do Livro e da Rádio Comunitária), reabrindo a biblioteca (que estava fechada) e retomando a circulação do jornal Clarim Santanense. Entre 2007 a 2008, produzi e apresentei aos sábados, na Rádio Comunitária, o “Programa Comunidade & Cidadania”.

Hoje, tenho consciência de que minha disposição de servir, de me engajar na busca de soluções, e a visibilidade daí decorrente, gerou ciumeiras, hostilidades dissimuladas e boicotes, talvez com reflexos inclusive nas questões eleitorais, mesmo que eu nunca tenha alimentado “projetos pessoais”, sempre atuando pelo “coletivo”.

Enfim, veio 2009 e as consequências de uma derrota eleitoral que as “lideranças” de ocasião se recusavam analisar para projetar o futuro, como fizemos 20 anos antes, em 1989. Sentindo que o cenário era outro, e que minhas ideias e ações já não contribuíam, retirei-me silenciosamente.

Na próxima postagem, finalizo esta série, falando sobre o que veio a partir de 2009 e os ruídos de 2019.

Postado no facebook dia 12/12/2019

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