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domingo, 3 de novembro de 2013

LOUCOS, MENDIGOS... OU IRMÃOS

Pela janela entreaberta do quarto entrava uma aragem, a brisa fina do fim da tarde. Era mês de agosto, porém fazia um belo dia, embora meio enfumaçado, como a dar mostras de que a primavera vinha se aproximando.

Não sei por que, de repente retrocedi no tempo e comecei a pensar em minha infância, já um pouco distante, meus sete anos. Lembrei-me do tempo em que Vovô Donato era vivo. Passou-me pela memória a casa grande e inevitavelmente recordei algumas figuras até certo ponto folclóricas da pequena aldeia que era então a cidade de Santana da Boa Vista.

Parecia estar vendo em minha frente aqueles dois mendigos, o Sarapião e o Julio Pata. Eram irmãos. Mas o que mais me impressionou foi a visão momentânea que tive do negro Diamarante, um débil mental, louco como todos o chamavam, quase nu a pedir comida pelas casas. Via agora os três, sentados na área da casa, onde minha avó Maria Altina servia-lhes comida todos os dias.

A visão passou, o tempo também. Já não sou mais aquele menino inocente, minha avó já não mora mais na casa grande, pois dali se mudou desde que meu avô faleceu. Os mendigos, e o louco também, já não existem mais. Um a um, foram desaparecendo e tão logo caindo no esquecimento, porém agora desenterrados pelo meu pensamento, que depois de ir à lua, a marte, ao fundo dos oceanos, ao ano dois mil, voltou no tempo e reviveu os mortos.

Então eu fico pensativo, me perguntando por que será que as criaturas humanas caem no esquecimento quando não tem quem lhes coloque uma cruz que ao menos diga: “aqui jaz Fulano, nasceu e morreu nesta aldeia”. Porque só nos lembramos daqueles cujos nomes enchem os livros de história? Teriam sido melhores? Duvido muito! Talvez tenham sido responsáveis por algumas centenas de mortos numa batalha... Grande ato!

Será que não caberia também num livro de história o nome de quem que nasceu, viveu e morreu, sem nunca ter feito mal a alguém? Será que não deveríamos ter mais um pouquinho de consideração por aqueles mendigos, loucos, maltrapilhos, seja lá o que for, mas que sobre tudo eram nossos irmãos?

Caxias do Sul, 22 de agosto de 1977


Nota: Este texto foi escrito há 36 anos, quando eu tinha 20 anos de idade, cursava o primeiro ano de faculdade e morava numa pensão em Caxias do Sul. Foi resgatado agora por minha mãe, Dona Neli, que vez por outra garimpa algum de meus rabiscos juvenis. A publicação, além de registrar um pouco da memória da aldeia, é uma homenagem à minha mãe, mestra nas lições de fé e de caridade.  

 - Artigo publicado no INFORMATIVO SANTANENSE  (Edição Setembro/2013)

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