Pela janela entreaberta do quarto entrava uma
aragem, a brisa fina do fim da tarde. Era mês de agosto, porém fazia um belo
dia, embora meio enfumaçado, como a dar mostras de que a primavera vinha se
aproximando.
Não sei por que, de repente retrocedi no
tempo e comecei a pensar em minha infância, já um pouco distante, meus sete
anos. Lembrei-me do tempo em que Vovô Donato era vivo. Passou-me pela memória a
casa grande e inevitavelmente recordei algumas figuras até certo ponto
folclóricas da pequena aldeia que era então a cidade de Santana da Boa Vista.
Parecia estar vendo em minha frente aqueles
dois mendigos, o Sarapião e o Julio Pata. Eram irmãos. Mas o que mais me
impressionou foi a visão momentânea que tive do negro Diamarante, um débil
mental, louco como todos o chamavam, quase nu a pedir comida pelas casas. Via
agora os três, sentados na área da casa, onde minha avó Maria Altina
servia-lhes comida todos os dias.
A visão passou, o tempo também. Já não sou
mais aquele menino inocente, minha avó já não mora mais na casa grande, pois dali
se mudou desde que meu avô faleceu. Os mendigos, e o louco também, já não
existem mais. Um a um, foram desaparecendo e tão logo caindo no esquecimento,
porém agora desenterrados pelo meu pensamento, que depois de ir à lua, a marte,
ao fundo dos oceanos, ao ano dois mil, voltou no tempo e reviveu os mortos.
Então eu fico pensativo, me perguntando por que
será que as criaturas humanas caem no esquecimento quando não tem quem lhes
coloque uma cruz que ao menos diga: “aqui jaz Fulano, nasceu e morreu nesta
aldeia”. Porque só nos lembramos daqueles cujos nomes enchem os livros de
história? Teriam sido melhores? Duvido muito! Talvez tenham sido responsáveis
por algumas centenas de mortos numa batalha... Grande ato!
Será que não caberia também num livro de
história o nome de quem que nasceu, viveu e morreu, sem nunca ter feito mal a
alguém? Será que não deveríamos ter mais um pouquinho de consideração por
aqueles mendigos, loucos, maltrapilhos, seja lá o que for, mas que sobre tudo
eram nossos irmãos?
Caxias do Sul, 22 de agosto de 1977
Nota: Este
texto foi escrito há 36 anos, quando eu tinha 20 anos de idade, cursava o
primeiro ano de faculdade e morava numa pensão em Caxias do Sul. Foi resgatado
agora por minha mãe, Dona Neli, que vez por outra garimpa algum de meus
rabiscos juvenis. A publicação, além de registrar um pouco da memória da
aldeia, é uma homenagem à minha mãe, mestra nas lições de fé e de caridade.
- Artigo publicado no INFORMATIVO SANTANENSE (Edição Setembro/2013)
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