Apesar do rigoroso inverno de agosto, a quarta-feira apresentou um ensolarado dia de primavera, estimulando minhas caminhadas e visitas. Um chimarrão aqui, um docinho ali, um café acolá. Um encontro rápido na esquina, com a troca de meia dúzia de palavras cordiais.
Já na quinta-feira, início da manhã, fui à sede do Clube do Livro pagar minha contribuição social. Fiz uma rápida visita às dependências da biblioteca e ao estúdio da rádio e saí. O sol convidava para um passeio. Fui até a praça, que àquela hora estava totalmente vazia, e sentei em um banco, talvez na expectativa de que passasse algum conhecido para um breve papo, o que não aconteceu.Em poucos instantes, despertado pela memória dos compromissos do dia, levantei displicentemente para retornar à casa de minha mãe. Foi quando o inusitado aconteceu... Ouvi aquela voz, próxima, parecendo familiar e, ao mesmo tempo, um tanto distante e estranha, dizendo: “Ei, já vai?”
Olhei para os lados e não vi ninguém. A voz voltou, em tom zombeteiro: “Quem é vivo sempre aparece.”
Olhei para o lado da igreja, do quiosque, do clube. Ninguém... Pensei: “Ôpa! Estou ouvindo vozes. Será assombração? Será uma mensagem? Será que tomei muito chimarrão ontem? Ou seria aquele docinho na casa da tia?”
Já estava ficando muito assustado quando a voz retornou dizendo:
“Sou eu, o Plátano. Quanto tempo? Andavas sumido...”
Foi aí que percebi que estivera sentado sob um velho pé de plátano, uma das mais antigas árvores da praça. Olhei para os lados, meio sem saber o que fazer, e perguntei, quase num sussurro: “Ma...ma...masss, tu falas? Como nunca te ouvi falar antes?”
E veio a pronta resposta: “Eu escuto, muito, há muito tempo. Aqui deste meu enraizado silêncio, já ouvi muita gente, muita coisa, bobagem, coisa séria, coisas que nem dá pra contar... Já te ouvi muito, proseando sentado aqui, caminhando por ali, falando para o povo na praça. Hoje, estranhei teu silêncio e resolvi te falar...”
Olhei o plátano “de cima a baixo”. Nesse momento, pareceu-me familiar. Arrisquei entrar no diálogo: “Pois é, ando meio ausente. Acho que já não tem muita gente disposta a me ouvir por aqui. Mas, se me virem conversando com uma árvore, vão me chamar de louco”.
O plátano pareceu sorrir e disse: “Não te preocupa. Muitos já chamam...”
Indaguei: “Por quê?”
Meu interlocutor respondeu, de pronto: “Tens o hábito de dizer ou escrever coisas que muitos não entendem e outros tantos não gostam”.
Agora já familiarizado, pergunto: “O que, por exemplo?”
O amigo Plátano baixou a voz (pareceu-me senti-lo espiando para os lados) e disse: “Pregas coerência na política, não concordas com a prática diferente do discurso e criticas o populismo e o assistencialismo; vives falando em preservação do meio ambiente e contra o desmatamento; denuncias a pesca predatória no Rio Camaquã; foste para a rádio falar em igualdade dos negros e denunciar os absurdos da escravidão e da discriminação racial...” Fez um breve silêncio e completou: “Achas que isto ficaria gratuito? Por que achas que trataram de acabar com o jornal onde escrevias e de calar tua voz na rádio?”
Olhei para o Plátano, agora íntimo e confiante, pouco ligando para as pessoas que já começavam a passar na praça, e perguntei: “Como sabes de tudo isso? O que mais sabes?”
O Plátano fez “cara de sabido” e lascou: “Sei de tudo. Estou aqui há muito tempo”.
Aí, perguntei: “Ouves, já sei. Mas, como sabes de meus escritos?”.
Meu amigo vegetal respondeu, parecendo impaciente: “Ora! Sei de tudo, o tempo todo, há muito tempo”.
E continuou: “Sei de tuas preocupações com o destino do Clube do Livro, do uso da rádio para interesses político/eleitoreiros e pessoais... Sei de tudo.... Sei o que muita gente não sabe ou não quer ver, como a tua denúncia de que dois ex-presidentes da Rádio Comunitária usaram a instituição como trampolim político nas eleições municipais de 2004 e de 2008. Após breve pausa, emendou: “Mas nenhum conseguiu o que buscava...”
Parece que percebi seus galhos sacudirem, num gesto de ansiedade. Precisava falar e disse: “Nas eleições de 2012 terá outro.”
Indaguei: “Como assim?”
E o Plátano continuou falando: “Já está tudo combinado. Foi lá, no Gabinete... Apoio para a eleição no Clube do Livro, muita gente associada só para votar. Criação de partido novo, coligação dele com ela, dizem que para vice. A rádio faz parte das estratégias. Tudo combinado...”
O Plátano estava cada vez mais ansioso. Falava ofegante e as coisas começavam a ficar difíceis de entender (ou talvez fáceis demais...). Nisto chegou a pessoa com quem eu deveria viajar para Caçapava. Quando vi estava ao meu lado, dizendo: “Falando sozinho?” Respondi: “Estava apenas admirando este velho plátano. Como está bem conservado!” Saindo rapidamente, olhei para traz e balbuciei: “Até outro dia, com mais tempo...”.
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NOTA: Parece que, algumas noites depois, vultos rondavam a praça, motosserras em punho, espreitando um velho pé de plátano, dizem que por ter “falado demais”.
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